A rivalidade entre o FC Barcelona e o Real Madrid vai muito além do futebol. Conhecido como El Clásico, o confronto reúne dois dos clubes mais bem-sucedidos da Espanha e também reflete a antiga divisão política e cultural entre a Catalunha e a cidade que abriga o trono espanhol.

Os clubes se enfrentaram pela primeira vez em 1902, três anos depois da fundação do Barcelona e no ano da criação do Real Madrid. Antes do encontro mais recente, eles haviam se enfrentado 264 vezes ao longo de 122 anos. Diferentemente de muitas grandes rivalidades, nenhuma das equipes tinha uma vantagem histórica clara: Barcelona e Real Madrid chegaram ao primeiro El Clásico da temporada 2026-27 de La Liga com 106 vitórias cada.

A intensidade da rivalidade está enraizada no turbulento século XX da Espanha. Enquanto o país buscava uma identidade nacional mais uniforme, a Catalunha defendia sua autonomia e o uso do catalão. Durante a ditadura de Francisco Franco, Madri passou a representar a Espanha centralizada, enquanto Barcelona ficou associada à Esquerda Republicana da Catalunha. Com a língua e a bandeira catalãs proibidas, o Camp Nou, do Barcelona, serviu como um lugar onde a identidade catalã ainda podia ser expressa. O ministro das Relações Exteriores de Franco, Fernando Maria de Castiella, certa vez descreveu o Real Madrid como “a melhor embaixada que já tivemos”.

Essas tensões não desapareceram. Em 2017, os catalães votaram sobre permanecer ou não como parte da Espanha, embora o governo espanhol tenha declarado o referendo ilegal e a polícia tenha intervindo nas seções eleitorais. No futebol, os clubes continuam sendo vistos como opostos, tanto politicamente quanto em termos de estilo.

O Real Madrid é retratado como um clube conservador que representa uma Espanha unificada e como um “Império do Mal” no mercado de transferências, buscando regularmente jogadores de elite por valores recordes. Seus elencos recentes incluíram Cristiano Ronaldo, David Beckham e Zinedine Zidane, enquanto o ataque atual conta com Jude Bellingham, Kylian Mbappé e Vinicius Jr.

A identidade do Barcelona está mais estreitamente ligada à La Masia, sua renomada academia de base. A academia promoveu um estilo baseado na posse de bola e no jogo posicional, associado a ex-integrantes do Barcelona, incluindo Lionel Messi, Xavi, Pep Guardiola e Andrés Iniesta. A seleção espanhola campeã da Copa do Mundo contou com oito ex-alunos da La Masia em campo, incluindo Marc Cucarella, que agora joga pelo Real Madrid.

A hostilidade em torno do confronto continua visível em Barcelona. Durante uma visita de quatro dias antes da partida, não havia nenhum escudo do Real Madrid à vista, embora as lojas de lembranças vendessem produtos falsificados do Madrid. No Camp Nou, a maioria dos torcedores visitantes foi colocada em uma seção do anel superior cercada por plexiglas de proteção.

Joel Jaggar, um residente britânico de Barcelona e proprietário da loja de camisas Real Vintage Football, chamou El Clásico de “a maior partida do futebol de clubes”. Sua loja vendeu pelo menos 100 camisas de Messi antes do fim do fim de semana, refletindo o número de visitantes que viajam a Barcelona não apenas para apoiar uma equipe, mas também para vivenciar a ocasião.

A partida ocorreu em meio a uma agitação mais ampla devido à crise do custo de vida em Barcelona, incluindo protestos liderados por estudantes que haviam provocado vandalismo e saques perto da loja de Jaggar. Havia preocupação de que o confronto pudesse ser adiado ou cancelado, mas ele aconteceu.

O Camp Nou, cuja capacidade estava limitada a aproximadamente 62.000 pessoas durante as reformas, foi palco de uma grande exibição coreografada antes do início da partida. Os torcedores levantaram cartões coloridos para criar um tifo por todo o estádio, incluindo bandeiras catalãs em uma seção, enquanto fogos de artifício marcaram o começo do jogo.

O Barcelona controlou grande parte do primeiro tempo, mas não conseguiu transformar sua posse de bola em gols. O Real Madrid abriu o placar, o Barcelona empatou depois do intervalo, e Mbappé recolocou o Madrid na frente aos 87 minutos, após uma assistência de Bellingham. Sua comemoração perto da seção dos torcedores do Barcelona provocou a torcida, com objetos sendo arremessados das arquibancadas.

O Real Madrid segurou a vitória, passando à frente na série histórica por 107 vitórias contra 106 do Barcelona após 265 confrontos. Quando as obras de reforma forem concluídas, espera-se que o Camp Nou possa acomodar 105.000 espectadores.

Diferentemente de uma final ou de uma partida de campeonato, El Clásico não oferece uma conclusão definitiva. Cada encontro acrescenta mais um capítulo a uma rivalidade moldada pela competição esportiva, pela história política e pela identidade regional. Seu equilíbrio garante que a tensão seja renovada toda vez que Barcelona e Real Madrid se enfrentam.

Fontes: GQ.